Missão


A Fotografia a preto-e-branco é a manifestação mais nobre da 8ª Arte. Uma imagem vale por si, pelo que contém e pelo que comunica. Todos os elementos acessórios são expurgados (começando pela cor) a ponto de não se sentir a sua falta.

Este singelo blogue pretende celebrar a Fotografia a preto-e-branco, relevando o papel dos Fotógrafos que, em nossa opinião, mais contribuiram para esta Arte.
Em complemento, os Autores do blogue irão trazer aqui algumas das suas próprias criações a preto-e-branco. Consoante a época em que foram produzidas (de 1960 até à actualidade) utilizaram-se múltiplos procedimentos na elaboração destas imagens.

Os detalhes técnicos de cada fotografia são deliberadamente escassos. Como se pretende, as imagens valem por si e as particularidades do processamento são quase sempre irrelevantes.

As imagens dos Grandes Mestres frequentemente retratam lugares, pessoas ou acontecimentos do conhecimento público. Do mesmo modo, considerou-se pouco relevante a sua legendagem quando o que se pretende é despertar a atenção do visitante para o portfolio dos Mestres, suscitando a vontade de melhor os conhecer.
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A História da Fotografia segundo Mário Marzagão

As primeiras imagens inequivocamente captadas por mim datam de 1971. Nesse ano, ganhei de presente duas semanas em Londres. Na altura, o meu Pai permitiu que eu levasse a máquina fotográfica dele. Era uma Kodak Baby Brownie dos anos 30 que lhe tinha saído numa rifa, ainda ele era solteiro.
 

Alguns episódios pitorescos ligados a esta máquina:  
  • A rifa premiada não foi comprada pelo meu Pai, foi-lhe oferecida. 
  • Uma vez, a máquina caiu ao Tejo e foi ao fundo na zona de embarque dos cacilheiros. Alguém mergulhou (!) e foi buscá-la. Secou-se, limpou-se e voltou a funcionar.
  • Esta máquina já fotografou um morto. Tratou-se de um bébé, cuja única foto foi tirada a pedido da sua Mãe.
  • Há pouco tempo vi uma máquina igual no mini-museu do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa.
As fotografias que então tirei não ganharam história (embora tenha imagens do Elton John, Fairport Convention e Rory Gallagher, poucas semanas antes de o Elton vir ao Festival de Vilar de Mouros). No entanto, a pouco e pouco, foi despertando em mim o gosto pela Fotografia.




Em 1972, um amigo emprestou-me a sua "rangefinder", uma Yashica Electro 35 GT, com a qual a produtividade disparou !! Como o empréstimo era de longo prazo, o vício começou a crescer até ao ponto de não-retorno.  De tal modo que, quando o amigo pediu a máquina de volta, cerca de ano e meio depois, já era tarde para voltar para a Kodak Baby Brownie.


Em 1974 (no dia em que o General Spínola tomou posse como Presidente da República) comprei a minha máquina fotográfica: uma Nikon F Photomic, na altura a melhor reflex 35mm do mercado e para alguns a melhor máquina fotográfica de sempre !!! Ainda a tenho e ainda hoje seria perfeitamente capaz de tirar boas fotos (as pilhas do fotómetro nunca necessitaram de ser mudadas e ainda estão boas).

A reboque da máquina fotográfica e ao longo dos anos veio toda a parafernália que estava associada à fotografia "do antigamente": objectivas wide-angle (Nikon 20 e 28mm), normal (Nikon 50 e 55mm macro), short-tele (Nikon 105mm), zoom (Vivitar 70-210), flash (Vivitar 283), fotómetro de mão (Lunasix 3), fole para cópia 1:1 (Vivitar bellows + lente Schneider 100mm), tripés, filtros, ... tudo dentro de uma mala de alumínio que, cheia, pesava mais de 10 quilos (ainda tenho praticamente tudo).

De facto, o saco de transporte com o "essencial" para a minha actividade de campo pesava cerca de 8 quilos, fora o tripé. Foi neste preparo que captei imagens de todas as viagens que fiz nos anos 70 e 80 do século passado. 


Na altura, fotografava cerca de 1 rolo de 40 imagens por dia (!!) o que, apesar de tudo, constituía uma despesa relevante para um estudante universitário. Para minimizar o rombo no orçamento, comprava o filme em bobines de 30m (Kodak Tri-X ou Ilford HP5) que depois eu cortava e montava nos rolos. Por maioria de razão, comecei a revelar os filmes em casa.


 
Com mais algum investimento (muito !) iniciei o processamento do papel. Virando os bolsos ao contrário, comprei um ampliador (primeiro um Meopta e mais tarde um glorioso Leitz Focomat IIc com lentes Zeiss) ao qual se seguiu toda a "tralha" associada: tanques, tinas, esmaltadeiras, fotómetro, lâmpadas. 
Começaram aí as noites mal-dormidas (laboratório até às 4 da manhã, universidade às 8 e meia).
Com o gosto que eu tinha pela actividade e os meus conhecimentos de Química rapidamente evoluí para voos mais altos e entrei na experimentação (processamentos especiais, recuperação de técnicas antigas, etc.) A minha biblioteca e o meu laboratório caseiro de produtos químicos crescera desmesuradamente, como se pode imaginar.

 

E assim correu o tempo, até 1985. Nessa altura, era este o meu equipamento (não contando com os químicos necessários para o processamento nem com o "material pesado": bancadas, armários, tinas de lavagem, esmaltadeira, ...):



No início dos anos 80 ocorreu uma pequena "revolução, com o aparecimento das "rangefinders" com foco automático e avanço motorizado do filme, tudo muito prático nos tempos que corriam.  A ponto de, ao longo da década, ter adquirido uma Canon AF35M (que mais tarde perdi...) e uma Nikon L35AF.

Em 1985 nasceu o meu Filho. E em 1986 a minha Mulher lançou-me o ultimato: "fora com o laboratório, quero a segunda casa-de-banho de volta". Vendi todo o laboratório (prateleiras, equipamentos, químicos e livros) por 100 "contos" (500 Euros).

A partir daí restringi-me aos diapositivos, que iniciara em 1978, e mantive a veia fotográfica até final dos anos 80, quando comprei a minha primeira câmara de vídeo.


A Fotografia foi relegada para segundo plano e, com o advento do vídeo (e sucessivas trocas de câmara) os filmes resultantes foram sendo cada vez mais satisfatórios. O software de edição de vídeo também começava timidamente a despontar.


A pouco e pouco, a minha Nikon F, injustamente obsoleta, já não dava conta do recado e já pesava mais do que a câmara de vídeo.
No final dos anos 90 ainda comprei uma Nikon F60 com auto-foco, mas já era tarde demais para a Fotografia Analógica.

A Fotografia Digital invadiu tudo (e o vídeo digital também). O aparecimento de máquinas com funcionalidades impensáveis e de software capaz de manipular os resultados até ao limite alteraram todos os conceitos tradicionalmente associados à Fotografia.

Também eu me deixei arrastar. Primeiro comprei uma Sony DSC-F77 (4.0 MPix) e mais tarde uma Casio Exilim EX-Z1200 (12.1 MPix) que em 3 anos de vida fez 23000 fotos.







E como umas coisas puxam outras, também "anda lá por casa" uma Nikon Coolpix L22 (12.0 MPix), que de vez em quando dá um ar da sua graça.
Mas a aquisição mais recente (Natal de 2011) foi uma Canon Powershot SX230HS
(12.1 MPix CMOS), cuja característica mais relevante é o seu competente zoom óptico de 14x.

Com a mudança de hábitos e o turbilhão tecnológico, a norma passou a ser uma média de 700~900 imagens/mês. Curiosamente, no auge da minha "aventura analógica" fazia 1 rolo/dia o que, em rigor, seria algo como 1100 imagens/mês...
 

Mas isto já não é a mesma coisa !!! Não há nada que se compare ao velho prazer do analógico ... e de todos, não há nada como o preto-e-branco !!!

"Carregar no botão" e não saber se tinha ficado bem ... ter de fotografar todas as 36 imagens do rolo, revelá-lo e só então ter uma idéia do potencial das imagens. Fazer provas de contacto. Estudar e planear o que fazer com cada imagem. Ampliar. Fazer provas de teste. Mascarar a luz do ampliador. Dosear a composição dos banhos e o tempo de tratamento. E, no fim, se tudo corresse bem, obter uma imagem, única e irrepetível, que valia cada minuto que tivéssemos consumido a produzi-la. E se quiséssemos repetir o processo nunca iria dar igual resultado (até poderia ser melhor, mas nunca igual).

Claro que, para situações realmente especiais, o detalhe começava logo com a captação da imagem (filtros, etc.) e com o próprio tipo de filme (infra-vermelho, "tungsténio", alto contraste, grão fino, alta sensibilidade, ...)

(Já nem falo aqui, por estar fora do contexto, da ocasião em que entendi lançar-me na revelação e ampliação a cores. Ficará para mais tarde).

A Fotografia a preto-e-branco é a manifestação mais nobre da 8ª Arte. Uma imagem vale por si, pelo que contém e pelo que comunica. Todos os elementos acessórios são expurgados (começando pela cor) a ponto de não se sentir a sua falta.

Ressalva:
Em abono da verdade, convenhamos que uma imagem analógica a preto e branco nunca tem só "preto" e "branco" (e/ou gamas de "cinzento").   A riqueza e profundidade destas imagens mede-se também pelo subtil jogo de tonalidades e texturas que o "grão" do negativo pode apresentar, bem como a sua consequência na imagem final em papel.   A "côr do grão" do papel depende da sua marca, tipo, graduação (contraste) e formulação dos banhos de processamento.   A grande riqueza de uma imagem a preto e branco está precisamente na subtileza que essas nuances podem apresentar.
Por vezes é o próprio pós-processamento que se encarrega de acrescentar côr à imagem final.   Tendo em conta que as tonalidades finais da imagem são propositadas e que, quer o "branco" (mistura de todas as cores) quer o "preto" (ausência de côr), são meras abstracções teóricas que a fotografia tenta captar melhor ou pior, todas as variantes acima enunciadas continuam aqui a considerar-se "imagens a preto e bran
co".
Veja-se a este propósito a excelente trilogia de livros de Ansel Adams: "The Camera", The Negative", "The Print".

A receita de Mário Marzagão

Mário Marzagão traz a este blogue algumas fotografias a preto-e-branco produzidas no último quarto do século passado.
Estas imagens nunca tiveram nome.   Mas, para o efeito, interessava dar-lhes uma identidade própria.   Os nomes escolhidos foram os que se pensou que melhor poderiam relacionar-se com as imagens, e a eventual escolha de nomes estrangeiros deve-se apenas a essa pretensão.   Pretensão sim, pretenciosismo não.
Onde é nítida (ou imaginada) a influência dos Mestres, a referência a esse facto é clara, fazendo jus ao provérbio "a imitação é a melhor forma de lisonjear".
 



Ao Amador, levanta-se desde logo a questão da reprodução fiel das imagens.   As fotos estão, na sua maior parte, impressas em papel nos formatos 18x24cm, 24x30cm e 30x40cm.   Para o mais pequeno destes formatos recorreu-se à digitalização com um scanner @ 1200 ppi, utilizando uma imagem-padrão para optimizar a reprodução das tonalidades e da gama de cinzentos (a célebre "Shirley" da Kodak).   Como os formatos maiores não cabem no scanner, resta a opção de os fotografar digitalmente e afinar a imagem para reproduzir o original o melhor possível (de novo com a ajuda da "Shirley").

 

Os filmes mais utilizados foram Kodak Tri-X e Ilford HP5, sempre revelados em casa, com banhos de diferentes fórmulas consoante o objectivo pretendido.   O papel utilizado foi Agfa Record Rapid (graduações 2, 3 e 5), revelados e fixados com banhos de composição variada, adequados ao fim em vista.   Várias imagens tiveram processamento adicional (por exemplo, para alterar químicamente a cor do depósito de prata) ou foram sujeitas a impressão em papeis especiais (alguns de elaboração caseira) ou alteração física.   Muitas das preparações utilizadas (reveladores, fixadores, banhos de pós-processamento) resultam de experimentação e formulações próprias.

Notas de rodapé:

A eventual margem branca irregular de algumas imagens denota a utilização integral do negativo, pressupondo aquilo que o Autor entendeu como o "enquadramento perfeito" de origem.

O processamento digital de fotografias obtidas a partir de negativo (ou por digitalização directa do próprio negativo) tem uma fase inesperada e anteriormente inexistente.   Com a ampliação da imagem revelam-se *milhões* de imperfeições anteriormente indiscerníveis.   Mau-grado todas as precauções, poeiras ou filamentos microscópicos depositam-se no negativo e são transferidos para a prova em papel e para a imagem digital.   O que era totalmente invisível no processo convencional aparece agora com um realce inimaginável.   E, onde dantes se usava o lápis e o pincel de retoque para as pequenas imperfeições, recorre-se agora ao "cloning".   Mas optou-se por manter a correcção no limite do razoável, apenas ao nível do que é aparente a olho nu (tal como outrora se fazia).


1976

A Receita de Pedro Marzagão

Pedro Marzagão viu o analógico passar a correr pela sua juventude e rapidamente ceder o lugar ao digital.   O culto do preto-e-branco é aqui uma simples opção estética, que, a par da imagem a cores, vale apenas pelo que é capaz de transmitir.

É o digital que comanda todo o processo, quer no pós-processamento quer na captação da imagem.
 
O equipamento utilizado acompanha a evolução da tecnologia e a voracidade do tempo, em que tudo fica obsoleto mais rapidamente. 

A uma Fuji Finepix S602Zoom (3.1 MPix) seguiu-se uma Fuji Finepix S9600 (9.0 MPix) e, mais recentemente, uma Canon EOS 550D (18.0 MPix).
Para andar no bolso, uma Canon IXUS 90 IS (10.0 MPix).


Para ceder ao exotismo, uma Lomo Fisheye 2 (rangefinder 35mm analógica). Ainda outra Lomo acaba de juntar-se à panóplia...



O pós-processamento é maioritariamente efectuado com recurso ao Corel PaintShopPro Photo X2.

Nota de um outro Autor: Pedro Marzagão não tem tempo (e porventura não tem paciência) para alimentar blogues. Mas Pedro Marzagão tem imagens que são relevantes para este blogue. As imagens irão pois aparecendo, ao ritmo da sua disponibilidade.

2008